
Sinto que está tudo a cair por terra. Tenho a raiva a fervilhar dentro de mim e tremo. Tremo e temo que nunca ninguém me compreenda e apoie. Neste momento, aquilo que faço ou digo é olhado pelos outros com admiração e gozo, porque não percebem. Se choro, se riu, se falo, se não falo, se olho, se não olho, ... ninguém compreende.
Agora, perdendo a força, deixo escapar todas as lágrimas que tentara guardar e controlar furiosamente até hoje. Sinto a cara coberta de um lençol molhado, um grande, pesado e ardente lençol cheio de desespero, angústia e mágoa. Ao libertá-lo agora sinto-me leve.
Estou farta, sinto que vou cair a qualquer momento. A fraqueza domina o meu corpo e alma, mas levanto-me e corro para fora daquelas quatro paredes como a pouca força que ainda me resta. Corro sem olhar para trás. Não quero saber do que deixei, já que isso também não quer saber de mim.
Saio do quarto e desço as escadas a correr. A minha cabeça está numa tremenda confusão, não consigo pensar com lógica e caio. O grande barulho que fiz, fez alguém perguntar do fundo da sala, num tom de repreensão e desconfiança:
- O que é que fizeste? O que é que aconteceu?
A minha cara enxercada de lágrimas vira-se de súbito na direcção da sala e os meus olhos, cobertos de desespero e raiva, entrelaçados a um ar selvagem, percorrem uma última vez aquela casa. O grande relógio apontava para as onze horas e quinze minutos. Levanto-me e corro em direcção à porta de saída sem dizer uma única palavra.
As minhas pernas mexem-se velozmente até ao final da rua, está a chover mas sinto as minhas pernas a escaldar. É noite e a rua está deserta devido à chuva, por isso sento-me no meio daquela estrada e ali vou ficar a olhar para a lua enquanto a chuva, acompanhada pelas minhas lágrimas me molham cada partícula do meu ser.
Preciso de estar só e pensar, organizar a minha vida. Aqui, acompanhada por este maravilhoso e cenário consigo.
Nunca antes tinha reparado em quão a lua é bonita e o som da chuva ainda é mais perfeito quando a nossa alma nele se entrelaça, dançando.
Fecho os olhos. Oiço algo mais a juntar-se a nós. Oiço passos atrás de mim e olho com medo que fosse alguém para me voltar a levar à escravidão daquelas quatro paredes. Reconheci as caras apesar da chuva, eram a minha irmã e irmão de coração. Sentaram-se ao pé de mim e deram-me as mãos, apoiando-me, e ali ficámos os três sob aquela noite acolhedora.
Carina Cristino, 3 de Outubro de 2009
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